Embora mais conhecidas pelos jovens, na pele de antagonistas em jogos de videogame como Hades, God of War e Witcher 3, as harpias, criaturas cruéis da mitologia grega com cabeça de mulher e corpo de ave de rapina, sempre tiveram seu nome usado como metáfora pejorativa. As vítimas eram mulheres consideradas intrometidas ou irritantes,
Em um artigo publicado recentemente na plataforma The Conversation, a doutoranda em História Clássica Grega e Romana, Kitty Smith, da Universidade de Sydney, na Austrália, destaca o lado escatológico desses monstros mitológicos. As harpias defecavam sobre os seus inimigos, deixando-os impregnados com um mau cheiro insuportável.
A associação das harpias com sujeira e contaminação fecal reforçava a natureza poluente e corrupta desses seres malignos da mitologia greco-romana, tanto no aspecto simbólico, quanto no literal. Isso tornava a punição feita por esses híbridos animal-humano particularmente humilhante e repulsiva para suas vítimas.
Como as harpias surgiram?
Uma das primeiras obras a popularizar as harpias na literatura ocidental foi a Eneida, poema épico do poeta romano Virgílio do século 1 a.C. A narrativa clássica descreve o herói da história, Eneias, encontrando harpias em sua busca para fundar Roma, e dizendo: — “Rostos de donzela têm esses pássaros, a sujeira mais suja que eles deixam, mãos com garras são deles e rostos sempre magros de fome”.
Apesar de a descrição manter a forma comum representada pela arte grega e romana de pássaros com cabeças de mulheres, há em Virgílio uma grande mudança na apresentação das harpias. De divindade do vento, como originalmente apresentadas pelo grego Hesíodo (no século 7 a.C.), elas se transformam em monstros punitivos, usando suas asas e garras afiadas para fazer justiça em nome de Zeus.
O ato de “arrebatar” com as garras (Harpyiai, em grego) acabou dando nome às criaturas. Para a autora, “Como era comum em muitas figuras mitológicas com características híbridas, a forma como suas características animais eram retratadas tendia a variar em diferentes mídias”. Em algumas, o destaque ia para as garras, enquanto, em outras, o foco eram as asas velozes e a fome voraz.
Um modo sujo de fazer justiça divina

A maneira suja como a qual as harpias executavam a punição divina ficou famosa no tormento aplicado a Fineu, o rei vidente da cidade de Salmydessus. Abusando de seus dons, ele revelou segredos dos deuses aos mortais. Como castigo, Zeus o condenou à imortalidade, somente para envelhecer e ser continuamento perseguido pelas harpias.
A tortura de Fineu era meticulosa: todas as vezes que ele tentava comer algo, as harpias surgiam como um raio dos céus e arrebatavam a comida de suas mãos com seus bicos afiados. Além disso, defecavam sobre os restos de comida, impregnando todo o lugar, e o próprio rei, com as “descargas sujas de suas barrigas”, segundo Virgílio.
Essa representação das harpias como seres repugnantes, combinando violência e degradação, reflete a visão greco-romana sobre a desobediência aos deuses. Ao retratar essas cenas grotescas, Virgílio buscava ampliar a monstruosidade das harpias, e reforçar os valores morais da justiça romana.
O que você achou desse estudo que mostra o lado sujo da justiça do Olimpo? Compartilhe com os mitófilos que você conhece e, para amenizar as coisas, saiba também quem foi Afrodite e qual é a origem da Deusa da Beleza. Ta léme!