A dança fúnebre cósmica que precede uma Supernova – Meio Bit

Um time de astrônomos anunciou a descoberta de um sistema binário “condenado”, formado por duas anãs brancas que orbitam uma à outra e estão em rota de colisão, a uma distância de 150 anos-luz da Terra, ou ali na esquina na escala cósmica. O evento desencadeará um tipo raro de Supernova, tão potente que brilhará 10 vezes mais que a Lua.

A explosão será definitivamente um espetáculo a ser apreciado, mas que infelizmente só vai acontecer daqui a 23 bilhões de anos, muito tempo depois de nosso planeta já ter virado poeira cósmica.

Representação artística do sistema binário, no momento em que a primeira anã branca explodir; sua “irmã” terá o mesmo destino 4 segundos depois (Crédito: Mark Garlick/University of Warwick)

Uma Supernova rara e potente

O estudo (cuidado, PDF) publicado na Nature Astronomy foi conduzido por uma equipe de pesquisadores de diversas instituições, e coordenado por James Munday, doutorando do Departamento de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Warwick, no Reino Unido. Ele usou dados de dois telescópios localizados na ilha de La Palma, nas Canárias, o Telescópio Óptico Nórdico (NOT), e o Telescópio William Herschel, que permitiram a observação detalhada dos corpos celestes.

Recapitulando, uma anã branca é subproduto final de uma estrela que não tinha massa suficiente para se tornar uma supernova. Quando esta consome todo o seu suprimento de hidrogênio, ela começa um processo de expansão e fusão do hélio, mas colapsa e sua camada externa se dispersa, esta virando uma nebulosa planetária. O núcleo fica para trás, este a anã branca, pouco maior que a Terra, mas tão denso quanto o Sol.

Aliás, uma anã branca é o destino do Sol daqui a alguns bilhões de anos, mas quando isso acontecer a Terra já terá sido engolida e vaporizada, durante a fase de gigante vermelha.

Sistemas binários não são tão incomuns no Universo, mas o que chamou a atenção do time de astrônomos foi a densidade das anãs brancas, de 1,56 vezes a do Sol, e a proximidade das duas as prendeu na gravidade uma da outra, em uma “dança” orbital que dura 14 horas. Com o passar de bilhões de anos, as ondas gravitacionais forçarão as estrelas a se aproximarem, onde uma das duas começará a puxar matéria da outra; nesse momento, elas estarão girando tão rápido, que uma órbita completa levará de 30 a 40 segundos apenas.

Os cientistas dizem que, dada a densidade, este sistema binário não tem outro destino a não ser explodir, gerando um fenômeno raro, uma Supernova classe 1a: esta ocorre quando uma anã branca absorve massa demais, geralmente de outra estrela, e não consegue se manter estável, já que não realiza nenhum processo de fusão, apenas queima todo o combustível que ainda lhe resta.

Quando a primeira estrela explodir, a segunda a acompanhará 4 segundos depois, e o flash resultante seria 10 vezes mais luminoso que a Lua e 200 mil vezes mais que Júpiter, se observado no céu noturno. Embora relativamente próximo da Terra, o evento não causaria nenhum dano ao planeta, até porque quando ele ocorrer, não haverá mais nada por aqui:

Os pesquisadores dizem que o sistema binário explodirá daqui a 23 bilhões de anos, 18 bilhões de anos depois do Sol se tornar uma gigante vermelha, e engolir nosso planetinha; para fins de contexto, vale lembrar que a idade do Universo é estimada em 13,8 bilhões de anos.

Segundo o estudo, o processo de detonação do gerará quatro explosões em sequência: a superfície da anã branca que absorverá massa da outra detonará primeiro, seguida de seu núcleo, que lançará materiais em todas as direções; estes colidirão com a estrela doadora, que irá explodir da mesma forma. O poder liberado será equivalente ao de UM QUATRILHÃO de Tsar bombas, a arma nuclear mais poderosa da História, e como resultado, não sobrará nada de nenhuma das duas anãs brancas.

O time de pesquisadores está agora vasculhando o Espaço em busca de novas possíveis candidatas a uma Supernova classe 1a, um evento que só ocorre uma vez a cada 500 anos na Via-láctea; uma normal é bem mais corriqueira, temos de 2 a 3 explosões por século em nossa vizinhança.

Referências bibliográficas

MUNDAY, J., PAKMOR, R., PELISOLI, I. et al. A super-Chandrasekhar mass type Ia supernova progenitor at 49 pc set to detonate in 23 Gyr. Nature Astronomy (2025), 11 páginas, 4 de abril de 2025.

DOI: 10.1038/s41550-025-02528-4

Fonte: Nature Astronomy, Popular Science

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